Por Ciro Garcez*
O cenário indie sempre vem com várias surpresas, com uma variedade de bandas surgindo todos os anos, e também tendo uma crescente de álbuns gravados. No início de 2026, mais precisamente em 22 de janeiro, veio o disco de estreia da Infinito Latente (@infinitolatente), Sem Início Nem Fim, mais uma banda que surge e que devíamos ficar atentos pela inventividade e fusão sonora que carrega.
O tempo e o amor são as questões existenciais de Sem Início Nem Fim, que sai pelo selo Retalho Music, e é fruto do encontro de Maira Bastos (voz) e João Dussan (violão e voz), do Vale do Paraíba, São Paulo, com o seu produtor Gabriel Olivieri. Após esse encontro a banda tomou forma, adicionando Igor Sganzerla (teclado) e Pedro Sardenha (baixo).
Com muitas love songs e vocais que fogem do comum do rock indie, a banda tem como base uma forte tradição de composição do Vale do Paraíba e grandes referências em artistas nacionais, como na própria MPB para a forma que cantam.
O el Cabong entrevistou Maira bastos e João Dussan para saber como foi gravar o disco, como se constitui a banda e o que fez Sem Início Nem Fim nascer.
Ciro: O tempo é um tema que permeia o álbum. Qual a relação de vocês com ele?
Maira Bastos: Boa pergunta. Eu acho que o tempo é uma coisa comum de todos nós. O tempo passa (risos), e a gente tenta, de certa forma, trazer esse elemento de forma mais leve assim também. Acho que a gente não traz esse peso de tipo ‘o nosso tempo está acabando’, mas ele realmente passa. Como o álbum passa esse olhar contemplativo, eu acho que é um pouco isso também, que a gente vê o tempo passando, junto com as paisagens e as mudanças que acontecem na gente, de dentro, de fora. Eu acho que é um pouco dessa sensação assim, de entender essas mudanças, que acontecem conosco e o mundo.
João Dussan: Realmente é um tema que a gente fica compondo músicas e a gente se depara com isso de novo, ‘ixi, a gente tá falando sobre isso de novo, a gente nem percebe e já falou.’, mas também eu acho que essas composições, elas são de uma fase. Nós compomos entre 2022 e 2023 a maioria das músicas. E aí, no final de 2023, ganhamos o concurso ‘The Horse Brasil’, do Cavalo Estúdio, que premia uma banda com um single grátis. No nosso caso a gente conseguiu construir um disco, pelo interesse do Gabriel Olivieri, que é o sócio-proprietário do Cavalo, porque ele ficou muito interessado no nosso repertório, que trazíamos do interior. Então eu acho que lá do interior, esse tempo diferente, mais a natureza, e naturalmente não é o fluxo que tem em São Paulo, então realmente estamos mais contemplativos. Observando, as coisas são mais devagar. Então eu acho que é isso, o poeta fala do mundo que ele vê, naquele momento o nosso mundo era aquele. Então o tempo, até elementos da natureza, o céu, a gente olha para as coisas assim e isso tá nas composição. Eu acho que em São Paulo a gente tá mais focado em outras coisas, e acaba não olhando pro céu, não repara tanto nas coisas ao redor.
Ciro: O próprio nome do álbum já diz algo sobre o tempo, né? Ele passa de forma recorrente pelo tempo, o existencial e o amor. Parece um pouco também como um álbum de descoberta, de vocês estarem descobrindo sua própria linguagem, como quando a gente tá ali chegando nos 15 anos ou nos 20. Faz sentido essa interpretação?
João Dussan: Totalmente isso, com certeza é mais uma faceta desse lance do tempo. Que é também a gente falando da gente mesmo, como artista se construindo. “Agora a gente tem tantas perspectivas, a gente tem tantas possibilidades, a gente vai se moldando com tempo, cada coisa tem seu momento.” Então tem sim, estamos falando disso, da gente fazendo agora exatamente isso, a partir da nossa construção.
Maira Bastos: Eu acho que é aquela coisa dos motivos da gente acreditar, e nós falamos até que é também sobre nos colocarmos no mundo como artista. Eu acho que é difícil, a gente tá se descobrindo nisso, se jogando no mundo, vendo esse tempo passar e vendo esses frutos que isso vai gerando.
Ciro: Sobre o estilo de vocês, dá para ver o psicodélico ali, mas também dá pra ver que tem Luiza Lian, Céu. Existe uma tradição da canção bem forte, até da forma que Maira canta. É uma diferença de como a gente vê o rock, tanto na forma que cantam como nessa tradição da canção. Como vocês veem isso?
Maira: Nossa base reflete muito nisso, nossa base é MPB. A MPB bebe de muitos estilos musicais, inclusive o rock e a gente tem também essa tradição, da onde a gente vem também, uma tradição cancioneira. Então quando a gente se viu compondo, não tinha como ir para outro lado. Isso sempre foi uma coisa que teve muito forte tanto em mim quanto no João, a melodia e a letra guiando tudo. Até uma coisa que o Gabriel Olivieri (produtor musical do disco) falou pra gente quando conheceu ele ‘tem muitas bandas que pegam e buscam o estilo e depois eles vão pensar em melodia e letra. Vocês não, vocês fazem a canção, a melodia, a letra e tal, e depois vocês vão atrás do estilo que vocês querem. Eu acho que é isso, reflete muito a nossa base. E sim, Céu, Luísa Lian influenciaram a gente, além de outras pessoas, pessoas mais velhas, a tropicália, Gal, Ângela Ro Ro, enfim… Muitos artistas dessa MPB que fizeram nossa infância e nossa trajetória assim.
Ciro: Como foi o processo de escolha das músicas para fazer o disco?
João: Então, compomos essas músicas entre 2022 e 2023, que foi um período que estávamos rodando lá pelo nosso interior, lá no Vale do Paraíba, sem ser Infinito Latente. A gente rodava com outro projeto, só eu e Maira. E nesse processo compomos este repertório e começamos a pensar na Infinito Latente. Para pensar neste repertório foi uma escolha entre eu, Maira e Gabriel, que a gente mostrou umas músicas pra ele. Nós filtramos algumas músicas que tínhamos no repertório, e aí com Gabriel fechamos o disco. Dali a gente foi entendendo quais as nossas favoritas, como uma música poderia soar. Antes todas as músicas eram só no voz e violão, a gente tinha uma ideia dos arranjos e do que a gente queria. Aí começamos a criar os arranjos junto do Gabriel, e aí tivemos a parceria do Pedro (baixista) e Igor (tecladista). Aí eu toquei os violões e as guitarras e o Gabriel tocou as baterias. Mas cada um gravou outras coisinhas também. Assim que construímos essa sonoridade. Nós chegamos no repertório com a seguinte decisão: Nós tínhamos uma quantidade de músicas que fomos decidindo junto com o Gabriel e aí fomos nos decidindo pelo que a gente gostava mais.
Maira: Eu acho que de certa forma nós já tínhamos uma ideia de que sonoridade queríamos. Tanto que quando conhecemos o Gabriel, nós fomos nos apresentar no estúdio dele, e ele já sabia exatamente o que a gente queria para nossa sonoridade. Nós nem tínhamos apresentado todas as nossas composições da época. E daí perguntamos quais músicas das nossas tem mais essa cara que a gente quer pro disco, sendo que no repertório tinham coisas mais regionais, outras mais MPB. Aí escolhemos as onze músicas, mandou pra ele, ele mandou notas pra elas e colocou ‘vamos gravar’. E depois foi até engraçado, que as notas das músicas foram aumentando com o tempo.
Ciro: Como foi a experiência de gravar um disco? Vocês já tinham experiência de gravação antes?
João: Foi uma novidade. Nós nunca tínhamos gravado um disco, é o primeiro disco que a gente grava na nossa vida. Nós já havíamos lançado músicas antes, em outro projeto que eu tinha com amigos e a Maira fez parte depois. Antes dela entrar nós gravamos um EP, com músicas que a gente tinha, mas foi feito no susto. Gravou num final de semana entre nós. Teve uma pessoa gravando, um técnico de som, mas não tinha produtor nem nada. Gravamos quase sem ensaiar, com o que tinha na cabeça, em poucos dias. Foi a única experiência que tivemos com gravação. Depois tivemos uma experiência de tocar, circular tanto com essa banda quanto nós dois em vários lugares diferentes. Dentro desse processo acho que o disco mesmo, ficamos um ano e meio produzindo. Então foi uma loucura, a gente passou muito tempo, vários finais de semana, dormimos e acordamos no estúdio, então realmente foi uma novidade. E muita coisa do processo ali, com o Gabriel, que tem experiência e já produziu vários trabalhos, então também era impressionante ver habilidade dele ali de gravar, cortar, montar. Já saber mais ou menos o que ele imagina pra criar um fonograma. Essa especificidade deste projeto também, que é você criando fonogramas dentro de um disco. Às vezes a gente tinha a ideia de querer fazer um disco porque queria realizar isso. Ter o Gabriel, que tem essa experiência, que foi lapidando esse desejo de fazer o disco e que foi criando uma coisa consistente e uma unidade.
Maira: O processo de gravação foi uma super experiência, eu conheci o João após eles acabarem de gravar o EP, e eu até tinha tido uma experiência, com um amigo meu, gravando composições de uma outra pessoa até, mas foi minha primeira experiência com estúdio mesmo esse disco, que ainda eu participei de todos os processos. E eu virei outra pessoa, consigo mais claramente ver todos os processos. E isso vai ser super importante pra mim para outras gravações e outros projetos. Com certeza mudou minha percepção sobre o que é gravar e o que é produzir um álbum musical.
Ciro: Vocês são do Vale do Paraíba e se mudaram para São Paulo recentemente. Como tem sido esse processo da banda e se vendo na cena?
Maira: Assim, eu acho que São Paulo é lugar que a galera vem porque aqui realmente tem mais oportunidades, e isso é meio ruim. Nós queríamos que todos os lugares pudessem ter essa cena mais forte, como acontece aqui e que a gente pudesse, dessa forma, circular com muito mais facilidade, porque nós também temos interesse em rodar por outros lugares e como seria muito mais legal se a gente pudesse mesmo contar com essas cenas e esses espaços, que tem aqui em São Paulo, só que em outros lugares. É um pouco difícil. Nós ficamos fadados a fazer esse movimento, e olha que temos até uma certa sorte, porque não somos de tão longe, somos daqui do estado de São Paulo. Fica muito mais fácil pra gente ter um apoio da nossa família, que é importante demais para nós que estamos nesse corre. E nosso processo, eu diria que viemos aos poucos, porque quando a gente veio, foi muito pra gravar, então viemos muito com esse movimento, com o Gabriel de vir pra cá pra ir no estúdio, então tiveram vezes que tivemos que ficar alguns dias. Quando chegamos em definitivo, viemos para trabalhar com arte-educação, podendo se sustentar disso. E ainda continuando esse processo de gravação, então ficamos também muito em casa, e agora que a gente tá começando mesmo a participar das cenas, de ir nos lugares, conhecer as pessoas. e isso é bom, é muito bom esse contato com a galera que tá fazendo o rolê, mas seria muito mais interessante se houvesse essa descentralização desse rolê indie.
João: Dentro de São Paulo mesmo, você vê que é um rolê que acontece bastante na Vila Madalena, em Pinheiros, poucos lugares na real. É uma cidade enorme, mas na zona leste, onde moramos, quase não tem nada, ou não tem absolutamente nada. Tem o Sesc Belenzinho, na Zona Leste, que movimenta um pouco da cena, que vem algumas bandas pra cá. Mas essas casas que tem em São Paulo, a maioria é próximo da mesma região. Então essa centralização que tem em São Paulo em relação ao Brasil, tem também na própria cidade, mas faz parte do processo vir pra cá, não é o ideal, mas é o que tem pra hoje.
Ciro: Quais artistas e discos influenciaram vocês e o disco?
Maira: Eu acho que tiveram várias referências quando começamos a pensar na gravação. A gente fez até uma playlist com um pouco das músicas que a gente queria passar um estilo musical parecido. Então tem Jadsa, Luiza Lian, Sophia Chablau, Tuyo, Pelados, Varanda. Tem algumas referências regionais do nosso interior também.
João: Todas essas referências dessa música, desses artistas que tem uma trajetória, mas também artistas que estão começando. Nós temos também uma tradição da MPB dos anos 1970, com Caetano, Gil… Djavan também, que a gente gosta muito, escuta bastante. Tem bastante haver algumas músicas e love songs de Djavan. ‘Amanhãs Azuis’, por exemplo, tem bastante, essa coisa do violão, eu sinto bastante Djavan ali. Tem um disco dele ‘Não É Azul, Mas É Mar’ que ali tem… nossa! Muita love song forte. Acho que Luedji Luna, Jadsa, Russo Passapusso, Curumin, Bruno Berle, Batata Boy, João Menezes, Antônio Carlos e Jocafi. Enfim, a gente fez essa construção com bastante brasilidade, a nossa referência é essa. Eu acho que a nossa atitude a gente tende ir pra um rolê mais rock e indie, mas nossa referência musical canção é totalmente brasilidades.
* Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.






