Já se aproximava da meia noite quando Seun Kuti subiu ao palco. Até aquele momento, o Trace Fest Salvador, realizado na última sexta (7), na capital baiana, havia circulado em torno de beats e da música preta urbana contemporânea. O filho caçula de Fela Kuti, acompanhado de sua banda Egypt 80, fechou a noite e tratou de dar novos ares à Praça Maria Felipa, ao lado do famoso Mercado Modelo.
Talvez o público mais jovem, maior parte dos presentes, não estivesse tão disposto a sair do ambiente de quebradeira, coreografias e bate cabelo predominante até então. Mas quem ficou até o fim (o evento começou com duas horas de atraso), viu o principal herdeiro do afrobeat entregar, para usar uma expressão corriqueira do momento, um showzaço. Ele trouxe o mais antigo e tradicional afrobeat, mas com um tempero próprio e atual, e elevou muito o nível da noite.
Era música orgânica, com banda, tocando ao vivo e sem concessões. Acompanhado de um trio no naipe de sopros, um baterista volumoso, um guitarrista preciso, um veterano baixista e uma backing vocal/ dançarina, Seun estava inspirado. Parecia entrar em outro estado de consciência estimulado pelo ritmo, numa performance particular, que unia dança, transe, gritos e gestos.
As longas músicas, com ritmos complexos, linhas de baixo profundas, batidas repetidas e improvisação, ligavam os sentimentos mais básicos de quem estava disposto a se deixar levar pela sonoridade. Sem discursos, visivelmente à vontade, Seun foi direto, cantou, dançou, tocou sax e não economizou na vibração com o som que ele e a banda faziam. Em exatas uma hora de show, mostrou que o afrobeat de Fela e seus discípulos ainda pode contribuir muito.
Tudo começou mais cedo, não tão cedo quanto se esperava, já que marcado para começar às 17 horas, as primeiras batidas só foram sair dos subgraves quase às 19 horas. A sequência de atrações foi iniciada pelo coletivo Batekoo, que intercalava os shows com seus DJs, sempre com música preta contemporânea, pagode, funk, trap, kuduro, dancehall, pop, r&b e por aí vai.
Antes de Seun Kuti fechar a noite, o palco recebeu uma sequência de apresentações. Começando com o jovem baiano Ítalo Melo, que mostrou seu trap sem muita inspiração e que ainda pode ser desenvolvido. O público ainda pequeno não deu muita atenção, nem quando ele recebeu a cantora Nega.
Formada por um francês com raízes no Congo, mas radicado no Brasil, e um argentino naturalizado paulistano, a dupla Pyroman & DJ Gustah, conseguiu empolgar muito mais. Com um rap mais próximo ao Boom Bap, com batidas impactantes e um flow mais incisivo, ganharam a massa.

Em tempos atuais, é impossível o pagodão não estar presente em uma festa em Salvador. Coube a Yan Cloud trazer sua versão através de um pagotrap potente. Com uma banda (bateria, baixo e teclados), dançarinas e muita energia cênica, ele definitivamente inflamou o público presente, que se não lotava, já enchia a praça. Sua mistura, que trazia ainda afrobeats, amapiano, R&B e rap, não deixou ninguém parado.
Outra atração internacional de peso da noite foi a cantora Ronisia. Nascida em Cabo Verde, radicada em Paris, mostrou porque vem sendo incensada como uma das revelações do R&B. Com simpatia e desenvoltura, ela dominou o palco com seus hits e uma mistura cheia de groove que passava por zouk, sons afro, rap e soul.

O Trace Fest era parte da programação do Festival Nosso Futuro – França-Brasil, Diálogos com a África, um evento que promoveu diversos encontros entre a África, o Brasil e a França. Por isso, o palco recebia artistas locais em diálogo com nomes internacionais. O evento, se propunha a “celebrar a força das juventudes, a energia dos territórios e o poder das narrativas afro-urbanas”.
O festival abriu um fim de semana bastante movimentado (e concorrido) na capital baiana, que culminou com mais uma edição do Festival Afropunk Brasil. Se a ideia é reforçar a vocação de Salvador como capital da cultura negra das Américas e símbolo de conexões afro-diaspóricas contemporâneas, o resultado tem sido positivo.






